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OPINIÃO: Palavras e o professor que lia dicionários

OPINIÃO: Palavras e o professor que lia dicionários

Todos os dias me apetece voltar às palavras como quem entra numa sala escura: andar por ali a tatear, com cautela, pé ante pé, tratá-las com o cuidado dos bebés, colocá-las ao colo se necessário, nunca as perder de vista, sorrir-lhes, brincar com elas, acreditar que há ali uma qualquer coisa de salvação. Mesmo quando, à volta, tudo se desmorona.

Acontece ainda mais nos dias em que elas me falham. O momento dá-se, entra-nos pela vida adentro, queremos nomeá-lo, explicá-lo, contá-lo, entendê-lo. Uma inaudita força barra-nos. Hesito, penso, mas sinto que fica tanto por dizer.

Quando andava na universidade, um dos melhores professores que tive contou-nos uma história. Eram os primeiros dias dos três anos de curso. Ele chegou: alto, levemente envergonhado, muito dócil na voz.

Apresentou-se e começou a falar: o que tinha feito, o que podíamos esperar; também nos escutou. Não estava ali para debitar, mas para ensinar. Isso marcou-me. Ainda hoje, penso muito no que lhe devo.

Já com a confiança minimamente conquistada, confessou-nos que «lia dicionários». A reação geral da turma terá ficado entre a troça e o espanto.

Dei por mim a imaginar como seria isso de «ler dicionários», um hábito que, acrescentou, cultivava.

«Vocês não?», perguntou-nos, também ele surpreso. Pareceu-me meio absurdo: as palavras aprendem-se nos livros, nos jornais, nas revistas. Hoje, consigo entendê-lo.

As letras – e, por conseguinte, as palavras – sempre foram o meu refúgio. Sei como partilho isso com muita gente. Estou longe de ser caso isolado.

Na cozinha da casa dos meus pais, há uma mesa onde, em alguns dias do ano, entra um feixe de luz que fez mais por mim do que dezenas de almas. É ao pôr do sol. Faz tempo que não me sento nesse específico lugar.

Teria talvez 8 ou 9 anos, estava a escrever um qualquer texto que me tinha sido pedido como trabalho de casa e esse leve raio, de luz de final do dia, inundou-me a folha, o lápis. Iluminou as letras, as frases, tudo me pareceu perfeito naqueles segundos.

Acho que foi aí quando percebi, pela primeira vez, que as palavras seriam prisão e amor eternos. Mesmo quando elas me falham, como me acontece tantas vezes quando olho para alguém, lhe quero dizer o quão gosto dela, o tanto que lhe devo. E elas falham-me.

Para que não haja dúvidas, ficam com este texto, sim?

Pedro Lemos

Poucas coisas me dão mais gozo na vida do que sentar-me frente a frente com uma pessoa, olhar-lhe nos olhos, escutá-la e ouvir a sua história para depois a verter num texto. Acho que isso diz tudo sobre como vejo e encaro isto do jornalismo, onde ando há quase 10 anos. Sou o Pedro.

FONTE: SUL INFORMAÇÃO

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